Tributo a Farias Brito

Prolegômenos

Três textos mereceram minha especial atenção de e sobre Raimundo de Farias Brito. O primeiro deles o material didático fornecido pela instituição de ensino UCB – Universidade Católica de Brasília, intitulado Filosofia no Brasil Republicano, particularmente nos trechos sobre o filósofo cearense ora destacado sob o título Farias Brito e o Espiritualismo; o segundo, A ética em Farias Brito, do professor Márcio José Andrade da Silva; por fim, alguns destaques da obra O mundo interior, de autoria do próprio autor em estudo.

Num segundo momento ainda inserido na etapa preparatória, passei a registrar alguns dados desse autor, que passo a compartilhar. Raimundo de Farias Brito, nascido na cidade de São Benedito no ano de 1862 e falecido em 1917, com 54 anos, no Rio de Janeiro, teve como seu trabalho notável a citada obra O Mundo Interior. Pertenceu à tradição espiritualista, o que me convidou a focar meu olhar e estabelecer meus filtros através desse corte para essa pesquisa e trabalho filosófico.

Patrono da cadeira 31 da Academia Cearense de Letras, caminhou por várias perspectivas espiritualistas no combate ao materialismo e suas vertentes positivistas, firmando posição altiva em sentido contrário, ou seja, assumindo corajosamente uma cosmovisão espiritualista em plena exaltação materialista.

Sob a égide das reflexões éticas, Brito confessa um conceito pessimista de homem. O homem tende ao mal, mas é regenerável por sua consciência, seu livre arbítrio e seu esforço personalíssimo.

Politicamente, Farias Brito condenou a Revolução Francesa, o liberalismo, o individualismo, a democracia e o socialismo. Considerou o liberalismo como fomentador do socialismo e do positivismo. O individualismo trouxe-nos o egoísmo e desaguou no materialismo fraticida. Esse autor teve a lucidez e a coragem para analisar e condenar Comte (ditadura científica), Spencer (naturalismo individualista) e Marx (socialismo coletivista, fanatizador e ceifador da individualidade, o que José Ortega y Gasset bem denominou de “homem-massa”). Embora anticomunista declarado, Brito defende o patrocínio do Estado em garantias mínimas de subsistência para os mais necessitados.

 

Filosofia no Brasil Republicano

O texto não trata apenas do autor em estudo e contextualiza o filósofo em tela, tudo isso com notável poder de síntese. O sub tópico foi intitulado Farias Brito e o Espiritualismo narra a influência das ideias positivas, do evolucionismo e do materialismo, no século XIX. Vale dizer que o lugar filosófico comum, na época, era o paradigma materialista. Farias Brito teve a coragem de pensar de contra esse fluxo externo, mostrando toda sua autonomia para assumir um pensamento espiritualista e constituir sua Filosofia como ciência do espírito.

Farias Brito considerou espírito como “a energia presente no ser humano que sente e conhece, manifestando-se como consciência”. Aprecio a coragem e franqueza desse autor na crítica à Kant e Comte. Minha reflexão, em Farias Brito, trouxe-me clareza sobre o reducionismo tanto de Kant como de Comte, pois ambos reduziram aspectos transcendentes da filosofia e da psicologia ao âmbito de mero dado positivo, seja empírico ou “transcendental”.

Em outras palavras, reduzir todos os aspectos transcendentes ao empirismo soa-me filosoficamente grotesco. Não menos bizarra a redução do termo “transcendental” para designar “apenas” o fenômeno dado na intuição ou nas áreas do intelecto humano, demasiadamente humano, com o perdão pelo chiste nietzschiano. Pessoalmente, ecoo Farias Brito em sua crítica filosófica.

Farias Brito coloca o conhecimento do rico universo da interioridade humana em patamar superior, ou seja, para muito além de meros testes quantitativos ou medições fenológicas. A razão, embora fundamental, não é suficiente para cobrir todos os aspectos do termo transcendente, tão pouco a frenologia ou testes meramente quantitativos. Nas palavras de Farias Brito: “acima da frenologia está a consciência humana”. Ainda em Farias Brito: “A consciência não pode ser meramente material”.

Neste sentido, advogo e adapto a cosmovisão de Farias Brito para meu próprio modelo pessoal, que parte da matéria bruta para jurisdições sutilizadas, fluídicas ou até mesmo imateriais (de baixo pra cima), conforme quadro 1 abaixo.

JurisdiçãoPredominânciaConsequência
Consciencial (espiritual)Espírito (imaterial)Eu sou
MentalPensamentoEu penso
SentimentalEmoçõesEu sinto
EnergéticaCorpo energético sutilEu canalizo (matéria sutilizada)
MaterialCorpo físico (energético grosseiro)Eu ajo (matéria densa)

 

Farias Brito está lúcido sobre a consciência transcender a matéria, incluindo-a ou não. A consciência, o espírito, o self, a alma, o ser essencial, enfim a Força que move a matéria supera completamente a psicologia mecanicista, chamado de paradigma newtoniano-cartesiano, muito embora eu não aprecie a expressão, pois nem Newton, muito menos Descartes, eram materialistas.

Hodiernamente, podemos conhecer cinco forças da Psicologia, que ora sintetizo em poucas palavras: 1. Behaviorismo ou psicologia comportamental. 2. Psicanálise. 3. Humanista. 4. Transpessoal. 5. Integral. Os autores reducionistas ou materialistas aplicam o vastíssimo universo psíquico à primeira corrente, medindo, comparando ou classificando comportamentos. Freud amplia esse paradigma deveras limitado para trazer as questões e os mistérios sombrios do inconsciente, tratando o lado apodrecido da laranja, numa linguagem alegórica.

A Psicologia Humanista, por sua vez, colocará seus holofotes nos aspectos mais luminosos do ente humano, ou seja, cuidando do lado saudável da laranja, seguindo a alegoria utilizada. A quarta força ou Psicologia Transpessoal procura descortinar as conexões dessas laranjas com toda a árvore, com todo o laranjal, todo o meio ambiente propiciador de seu crescimento e floração, enfim, de tudo ao seu redor. Por derradeiro, a pouco conhecida e ainda muito combatida quinta força ou Psicologia Integral advoga a eficácia de todas as forças anteriores, desde que tenhamos consciência das limitações de cada uma delas para acertarmos no diagnóstico e respectivos tratamentos, num processo de transcendência e inclusão.

A crítica de Farias Brito ao positivismo materialista é-me palatável e merecedora do meu aplauso filosófico, pois os autores materialistas, marxistas ou positivistas tentam esmagar todo o universo subjetivo e suas relações intersubjetivas numa caixinha materialista objetivamente desenhada pela razão humana. Em outra analogia, imaginei um touro mecânico desregulado e fazendo estragos numa delicada loja de cristais. Eis o materialismo, o positivismo e o marxismo em nossa sociedade.

O mecanismo materialista e seus filhotes positivistas e marxistas tentam materializar o imaterial e objetivar o subjetivo, esmagando os pensamentos, os sentimentos e a própria consciência contra a parede rochosa do próprio materialismo, esforçando-se ingloriamente para reduzir toda a grandeza transcendental (aqui sim, o termo transcendental pode ser aplicado com a devida propriedade) para alguma função observável por algum microscópio ou que caiba em algum tubo de ensaio.

A consequência é a migração das causas dos problemas ou das doenças (irritação, por exemplo) para algum agente externo ou órgãos corpóreos (gastrite oriunda da irritação), ou ainda a redução das mazelas sociais e individuais para agentes externos à sua própria consciência. Eis os pródromos e os mananciais de todos os preconceitos daqueles que aparentam combater o preconceito (mas, na verdade, fomentam-no), de onde emerge a covardia da terceirização de seus fracassos pessoais para algum estereótipo externo, sejam eles os militares supostamente malvados, essa ou aquela elite “opressora”, esse ou aquele gênero, profissão, raça etc.

Farias Brito esclarece-nos que o caminho não deve ser reduzido ao behaviorismo (expressão oriunda do termo inglês behavior), pois a observação comportamental não basta, embora nos ajude. Em Farias Brito, o processo de autoconhecimento não está no exterior (numa raça, num gênero, numa profissão etc.) ou numa medição comportamentalista qualquer, mas sim na busca interior através de uma pequena senda bastante seletiva, por onde os transeuntes desprovidos de envergadura moral para a observação de suas próprias mazelas claudicam, caem e, finalmente, sucumbem à covardia de fugirem de si mesmos e culparem os agentes externos por todas as suas desgraças.

 

A ética em Farias Brito

Esse valoroso trabalho filosófico do professor Márcio José Andrade da Silva[1] propôs um corte no pensamento filosófico de Farias Brito, particularmente em sua proposta ética.

O ponto culminante do estudo baseia-se na obra de Farias Brito publicada em 1912, A base física do espírito, através da qual o autor responsabiliza o Positivismo pelo colapso filosófico de seu tempo. O filósofo contemporâneo Ken Wilber faz crítica semelhante, pois considera que os quadrantes ou jurisdições objetivas – em especial a ciência sob o paradigma materialista – que apesar de suas fantásticas contribuições, atua negativamente quando tenta reduzir – ou até mesmo dominar – todos os demais quadrantes da realidade (jurisdições subjetivas, personalíssimas, meritórias ou o território intersubjetivo, cultural, interpessoal etc.) para sua própria perspectiva limitada por seus agentes sensoriais.

Enquanto algumas escolas psicológicas ou supostamente científicas se esforçam para descobrirem um suposto correspondente material para a consciência, Farias Brito considera a psique humana integrada à realidade e conectada à vida cósmica. Novamente, temos o resgate da magnitude devida do significado do termo “transcendental”, significante esse deveras vilipendiado por filósofos positivistas, materialistas e marxistas.

O espírito, a alma, a consciência, o self, enfim, nossa essência é a base do pensamento, dos sentimentos e de nossas ações. Quanto nosso pensamento, nosso sentimento e nossa ação estiver desconectada de nossa essência, as sombras provocadas por nosso egocentrismo obscuro assumirá o comando e os estragos fraticidas não tradarão. Os termos conexão ou religação nunca foram tão atuais, em especial após a lucidez oriunda da leitura atenta de Farias Brito.

Diante disso, eu não poderia deixar de aplaudir a conclusão de Farias Brito, em seu norte ético, em que define a moral como “a norma de conduta imposta pela própria consciência”. Vale dizer que nossa consciência detém a chave moral, ou seja, a lucidez suficiente para: 1. Fazer o bem. 2. Não fazer o mal.

O problema, portanto, ocorrerá quando nossos pensamentos – que é a locomotiva condutora dos sentimentos e ações – estiver desconectado ou desligado de nossa consciência, ou seja, de nossa essência. Neste caso, como já o dissemos, restará o ego nem sempre luminoso para guiar nossas ações.

 

O mundo interior

Nessa intrigante obra O mundo interior, como o próprio título sugere, Farias Brito resgata a máxima socrática “conhece-te a ti mesmo”, como balizador filosófico para, a partir daí, organizarmos a vida em sociedade, seja através do direito ou de princípios reguladores da conduta humana.

A proposta visa alforriar o homem de suas paixões inferiores e escravizadoras. A partir de Farias Brito, resta-nos claro que o espírito (a consciência) não engana a si mesmo. O ego, por sua vez, sim. Isso nos levará à proposta da religação com nossa essência, aproximando-o da antropologia cristã.

Enfim, entre a Psicologia sem e com alma, Farias Brito, definitivamente, opta pela segunda. Essa orientação de Farias Brito depreende-se do Capítulo INecessidade de uma orientação nova, da obra em estudo. Afirma o autor que os psicólogos da escola experimental ou “científica”, quando em dificuldades, suspendem a questão para aguardar alguma futura explicação positivista. Enfim, não consideram a hipótese científica de que a explicação pode simplesmente não residir no positivismo, mas sim em outros espectros de uma realidade infinitamente maior ou mais abrangente. Falta-lhes, portanto, a virtude da modéstia.

Em palavras mais sofisticadas, a consciência não é mero epifenômeno da matéria. Em Farias Brito, mais vale uma psicologia da introspecção do que métodos analíticos, externos ou materialistas. A crítica desse autor atinge frontalmente a Psicologia moderna, fisicalista, atomista e dominada pela redução do mundo psíquico à experimentação, ao cálculo, às medições, enfim, obcecada por encontrar o correspondente mecânico da consciência. Farias Brito prefere observar a Psicologia como a ciência do espírito.

Como corolário lógico de suas próprias proposições, Farias Brito propõe o renascimento da Filosofia do espírito, argumentando pela necessidade de que o homem readquirisse a consciência de si mesmo. Por fim, utilizando-se da linguagem alegórica, mesclada magistralmente com a prestimosa racionalidade filosófica, afirmou que o despertamento para a realidade da consciência seria “como se a humanidade acordasse do pesadelo de uma longa noite de delírios e de trabalhos insanos, em luta contra fantasmas desconhecidos e contra a iminência do aniquilamento universal”. E continua: “é com verdadeiro deslumbramento que contempla a luz que desponta no horizonte, anunciando a claridade do dia”.

Afinal, se tudo fosse apenas matéria, como insistem os materialistas, a consciência seria uma mentira, um mero clarão fugaz na suposta impermanência do ser. Farias Brito aponta em sentido contrário, ou seja, para uma renovação permanente, renascimentos edificantes e uma vida eterna sob a égide de leis naturais e perenes, as quais todas as operações da natureza e movimentos da vida estão sujeitas.

Por derradeiro, concluo esse trabalho abrindo aspas para o próprio Farias Brito sintetizar brilhantemente o corte que pretendi buscar em seu pensamento: “O espírito é, pois, o princípio dos princípios e a verdade das verdades, o fundamento de toda a realidade e a base de todo o conhecimento”. Vale dizer, ao negarem a realidade do espírito, os cientistas materialistas, positivistas e marxistas apenas podem tangenciar a realidade, jamais penetrá-la, pois negam a estrutura principal de si mesmos.[2]

E assim encerro minhas reflexões e argumentações justificadoras de meu apreço pelas ideias desse autor, envolvendo a análise textual, temática e interpretativa dos trechos, recortes conteudísticos e textos selecionados.

[1]SILVA, Márcio José Andrade da, A ética em Farias Brito, Faculdade de Educação e Ciências Gerenciais de Sumaré. Centro de Filosofia Brasileira – IFCS – UFRJ – Rio de Janeiro – RJ – Brasil.

[2] FARIAS BRITO, Raimundo de, O mundo interior, p. 87 – versão em PDF.