Coronavírus: duas realidades paralelas

A primeira realidade é que o vírus existe e mata pessoas. Simples assim. Nossos irmãos italianos que o digam.

A segunda delas é que a paralização atual não pode se alongar por muito tempo, sem também matar pessoas pelos respectivos e trágicos reflexos, seja pelo ameaçador desabastecimento, seja pelo aumento da desnutrição, da violência urbana, ou pela iminente e dramática majoração do número de desempregados e de miseráveis.

Um dos mais caros valores das pessoas de bem é a vida humana, tanto nossa como de nossos semelhantes. Esse princípio ético precede qualquer sistema econômico. Todavia, a falência do sistema econômico também repercutirá em mortes e sofrimentos por falta de saneamento básico, serviços essenciais, manutenção de hospitais e uma miríade de questões de gravíssimas consequências.

Portanto, temos um impasse. Não se trata de “vidas versus economia”. Na verdade, estamos diante de dois males terríveis, onde a avaliação do problema deve compor a questão “vidas versus vidas”.

Enfim, analisarei as duas hipóteses: 1. Manutenção da paralização. 2. Retorno das atividades econômicas. Notem que em ambos os casos teremos mortes. A primeira hipótese poderá causar sofridas mortes pelo aumento dos infectados. A segunda também poderá causar mortes de uma legião de infelizes na miséria e na desnutrição de uma população carente que ficará ainda mais exposta a todos os tipos de doenças letais, inclusive pelo próprio vírus que desejamos combater.

Sim, meus amigos, mantenho-me sereno e tudo que eu não desejo é assustá-los ainda mais; porém, vejo um cenário preocupante. “Preso por ter cão, preso por não ter”, diz o dito popular, cujo significado aproxima-se de outro jargão de nossa linguagem coloquial: “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. Será que não tem saída? Afinal, o que podemos fazer diante disso?

Alguém poderia, legitimamente, desejar a informação de que nação ou regime político seria o culpado por tais tragédias. É uma preocupação válida, principalmente para uma profilaxia futura, e deverá ser feita no devido tempo. Entretanto, no presente momento, a prioridade é questionarmos quais são as melhores medidas para perdemos um menor número de humanas. Reitero a questão: afinal, o que devemos fazer?

Tenho mais dúvidas que certezas, mas estou convencido de que a primeira medida para uma solução refletida e ponderada passa por pautarmos corretamente o debate. Devemos abandonar os fanatismos políticos e tosca demagogia dos oportunistas de plantão, conhecido como “clima de FLA-FLU”, emprestando o conhecido jargão futebolístico. Há que priorizarmos a racionalidade no combate inteligente desse problema. A palavra de ordem é equilíbrio.

Não podemos gerar um desabastecimento geral. Também não podemos negligenciar a possibilidade de proliferação trágica do vírus. Minha posição pessoal está em debatermos como preservar as vidas humanas, atendendo às duas demandas básicas, a saber: 1. Mantermos um certo giro – ainda que minimizado – da economia, a fim de conservarmos os alimentos nas mesas dos brasileiros, algum nível de transporte e alguma atividade empresarial que impedisse uma trágica taxa de mortalidade, consequente de uma falência econômica e sanitária generalizada. 2. Mantermos um respeitoso e equilibrado isolamento social, não somente nos grupos de risco, mas de todos os cidadãos que possam ficar em suas casas. Seria possível conciliar as duas coisas? Penso que sim.

É hora de colocarmos e mantermos em prática a tão criticada educação domiciliar, conhecida como homeschooling. Os detratores dessa prática devem, modestamente, sucumbirem às necessidades impostas pela realidade. É hora de lembrarmos que não existirá economia sem vidas humanas. Por outro lado, não manteremos nossas preciosas vidas humanas sem nossa atividade econômica. A vida de nossos mais queridos e amados companheiros evolutivos depende da consciência que estamos diante de uma mudança de paradigma social. Uma nova consciência pode e deve surgir dessa vicissitude mundial.

É hora do império do bom senso. Enfim, fujamos dos radicalismos e das paixões fanatizadoras. É hora das mudanças de hábitos, do retorno à valorização da estrutura familiar e da espiritualização como fortalecimento do caráter. É hora de sermos solidários. É hora de acabar com raves e bailes funks, independentemente do grito dos insurgentes ou beligerantes. É hora, numa das mãos, de mantermos o respeito, a ordem, a disciplina, a organização e a moralidade. Na outra mão, segurarmos altivamente a fraternidade, a caridade, a bondade e, principalmente, a perseverança no amor.