O QUADRADO-REDONDO UNIVERSITÁRIO
- A política na realidade e na visão universitária
Iniciemos pelas quatro principais visões políticas em pauta na modernidade, variedade essa imoralmente omitida pelas universidades brasileiras:
- Libertarianismo.
- Liberalismo clássico.
- Conservadorismo.
- Estadismo.
Em apertada síntese, podemos dizer que o libertarianismo é a perspectiva que deslegitima por completo qualquer atuação estatal ou governamental. Eis o principal mantra libertário: “imposto é roubo”. A lógica libertária baseia-se na radicalidade do livre arbítrio entre pessoas pacíficas, onde nenhum ente humano poderia expropriar unilateralmente o patrimônio de outro, sem incorrer em falha ética ou tirania.
O liberalismo clássico (de origem europeia), por sua vez, valida Estados ou governos minimalistas. Em suma, o comando central deve existir somente no absolutamente imprescindível para a manutenção daquela coletividade, evitando-se ao máximo possível a centralização de poder econômico. O princípio da subsidiariedade ocupa posicionamento central na pauta liberal clássica, especialmente para proteger as conquistas meritórias e as propriedades privadas dos cidadãos.
A via conservadora observará prudentemente o que foi consolidado pelo tempo, mormente nos aspectos morais. Assim, o agrupamento em células familiares foi devidamente validado pelo tempo, sendo digno, portanto, de conservação. Desde a Antiguidade estruturamos o conceito da proporcionalidade da Justiça, cujo tempo consolidou como uma boa ideia. O mesmo podemos dizer dos valores cristãos em torno do amor e da caridade. O tempo mostrou que tais valores são estruturais para uma sociedade justa e solidária, motivo pelo qual os precavidos conservadores advogam a preservação destes notáveis aspectos voltados ao bem, ao belo e ao verdadeiro.
Notem que não falei de finanças na vertente conservadora. Nada contra nomear Paulo Guedes como ministro da economia, mas os conservadores priorizam valores morais que a realidade validou no campo concreto. Dinheiro? Posses? Sim, são importantes também, mas secundários em relação aos valores transcendentes.
Por fim, o Estadismo advoga a concentração progressiva de poder para o Estado e seus agentes governamentais, estendendo os tentáculos estatais para todos os campos sociais, da família à religião, obviamente passando pela economia, em fragrante detrimento da liberdade individual e da justiça meritória, consubstanciada na máxima: a cada um, aquilo que lhe pertence. Aqui existe pouca preocupação com a realidade nua-e-crua, demonstrada empiricamente pela história da humanidade, mas sim com as panaceias políticas salvacionistas e utópicas teorias de gabinete. Seus filhotes mais famosos são o fascismo, o nazismo (nacional socialismo), o internacional socialismo e o comunismo.
Diante destas quatro visões bastante distintas, sendo três delas altamente ideológicas, faço uma pergunta retórica: adivinhem quantas delas são ofertadas nas universidades? Como o leitor atento certamente já desconfiou que a resposta é apenas uma.
A universidade advoga a pluralidade de autores e linhas de pensamento, mas foca em apenas uma vertente política e suas ramificações, que chamarei jocosamente de “50 tons de vermelho”. Abre-se o guarda-chuva estadista e dá-lhe Paulo Freire, Chauí (a pouco amante da classe média), Durkheim, Marx, Boff e todos os demais companheiros. De minha parte, nada contra estudar as diversas variações da perspectiva rubra, mas onde e quando entrariam as outras? Teríamos o direito de conhecer os autores libertários, como Rothbard ou Rand? Adentraríamos em Mises, Hayek ou Friedman, com a mesma profundidade? E os conservadores, como Scruton ou Chesterton? Seria pedir demais o autor Mario Ferreira dos Santos? E o impronunciável Olavo de Carvalho?
Pois bem, o que posso dizer é que, até o presente momento do curso, porto a sensação de muita lavagem cerebral e pouca “biodiversidade intelectual”, com o perdão pelo trocadilho jocoso. Em linguagem simplista: os alunos receberam promessas de múltiplas perspectivas e receberam o engodo da unicidade travestida de multiplicidade. Notem que sequer manifestei minha preferência política, apenas apontei o que julgo uma falha ética e educacional. Por fim, deixo uma pergunta retórica: isso ocorre intencionalmente ou por mera distração dos professores e gestores?
- A ética universitária ou sua falta
Analisarei um trecho do material didático da disciplina Ética, na universidade de Filosofia que frequento, que ora compartilho para sua avaliação direta, caro leitor:
“Outro aspecto importante é ter consciência de que há tantas culturas diferentes quantas são diversas as etnias existentes no mundo. No Brasil, embora se costume falar em “cultura brasileira” com o se fosse um a única, na realidade há centenas de culturas diferentes. Basta lembrar as centenas de culturas das tribos indígenas, dos negros que vieram da África e dos imigrantes de diversos países europeus ou asiáticos. Nenhum a dessas culturas, contudo, é superior às outras. Durkheim (2000) – que conviveu com mais de 400 grupos autóctones na Austrália – observou que cada grupo tem sua própria cultura e a partir dela cria suas religiões, suas leis, suas morais e ética; tornando absurda a ideia dos europeus da modernidade que tomavam sua cultura com o padrão das demais.”
Esses postulados – que considero inverdades – são a tônica do material didático em várias disciplinas. Destaquei e grifei três problemas contidos no texto, que tomo a liberdade de corrigi-los: 1. Os brasileiros não costumam falar que nossa cultura seja a única. 2. Existem níveis ético-culturais, inferiores e superiores. 3. Genericamente, os europeus modernos não podem ser acusados de imporem sua cultura como padrão para as demais, aliás, num sentido simbólico, penso que os europeus modernos careçam de mais testosterona contra os ataques tirânicos que, lamentavelmente, assombram o Velho Mundo.
Decidi compartilhar no chat da universidade (visível por professores e colegas de curso) minha opinião pessoal sobre o pensamento de Durkheim, que fora exposto pelo material apostilado sem contrapontos, ou seja, de maneira hegemônica, apologética e com ares de uma suposta verdade incontestável. Eis meu comentário:
Obviamente, existem culturas de mesmo patamar ético. Todavia, não estamos diante de uma disputa ética sobre qual a melhor gastronomia, se o tutu-de-feijão da cozinha mineira ou o acarajé baiano. Evidentemente, tais regionalismos peculiares e pitorescos estão em planície ética. Todavia, quando lembramos das cruéis touradas[1], apedrejamento de mulheres[2], infanticídio cultural indígena[3], infibulações[4], rinhas de galo[5], farras do boi[6], dentre outras hediondas práticas, não podemos igualar tais ações culturais com a compra de presentinhos natalinos. Ou podemos?
Ainda aguardo resposta dos professores. Porém, o mais chocante do conteúdo ofertado pela disciplina ainda estava por vir. Transcrevei outro trecho do material apostilado, sob o longo título “Os grupos sociais construídos e construtores da cultura, moral, ética e lei”:
“Sem haver interação com outros seres humanos, um bebê humano nunca será um ser humano, como mostra, entre outros exemplos, o conhecido caso das meninas que conviviam com os lobos na Índia. Elas não tenham nada de humano, além da aparência física; comportavam-se como lobas[7]. Assim percebemos que o ser humano constitui seu ser na convivência com os demais membros de sua comunidade”.
Ao analisar tal linha argumentativa, ousei elencar uma séria de questões que desafiam a premissa sugerida pelo material apostilado, no sentido de uma onipotência cultural em detrimento de aspectos personalíssimos, biológicos, individuais, psíquicos, espirituais e meritórios de cada ente humano. Ei-las:
- Um bebê humano deixa de ser humano pela convivência com lobos?
- O que seria ele então?
- Seria ele um lobo?
- Procriaria lobos, dando continuidade à sua “nova” espécie?
- Seu potencial cerebral seria reduzido ao da alcateia?
- Como uma suposta loba (na verdade, a menina Kamala) aprendeu a andar?
- Como um suposto bebê não humano (lobo) voltou a falar?[8]
- Isso seria aplicável aos demais membros da alcateia?
- Adotando a premissa advogada pelo material didático, um lobo criado em meio a humanos adquiriria potencial para falar, aprender física quântica, fazer operações matemáticas?
- E por que não balé clássico?
- Reducionismo interpretativo
Claramente, o ambiente universitário está contaminado por uma distorção reducionista da realidade. Eis aqui a nova divindade universitária: o reducionismo cultural. Pessoalmente, sou entusiasta de inúmeros aspectos culturais e advogo sua forte influência no indivíduo, mas isso não me impede de perceber que a cultura é “apenas” parte da realidade. Vale dizer, além de existirem níveis ético-culturais distintos, existem fatores subjetivos e objetivos que transcendem e convivem em simbiose com os fatores intersubjetivos culturais.
Focar apenas na cultura é reduzir todas as perspectivas da realidade ao aspecto intersubjetivo. Obviamente, reconheço a importância e a magnitude da influência da cultura em nossas vidas. Todavia, se excluirmos do tabuleiro da vida o lado objetivo e subjetivo da realidade multidimensional, escorregaremos numa interpretação míope e refratária ao óbvio ululante. Como resultado da loucura reducionista moderna, criaremos a ilusão infantil de que a parte seja o todo. Enfim, numa jocosa linguagem coloquial, bem-vindos ao pós-moderno quadrado-redondo.
[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Tauromaquia
[2]https://pt.wikipedia.org/wiki/Apedrejamento
[3]https://jus.com.br/artigos/60830/o-infanticidio-indigena-o-conflito-entre-os-direitos-humanos-e-o-respeito-a-diversidade-cultural
[4]https://pt.wikipedia.org/wiki/Mutilação_genital_feminina
[5]https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-e-realizada-uma-briga-de-galo/
[6]https://www.infoescola.com/folclore/farra-do-boi/
[7]https://pt.wikipedia.org/wiki/Amala_e_Kamala
[8]https://pt.wikipedia.org/wiki/Amala_e_Kamala
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